Certamente você sabe o que é plantio direto.

Certamente você sabe também de que forma essa técnica impulsionou a agricultura a dar um salto em termos de sustentabilidade e tecnologia.

Com frequência, sempre estamos mencionando este termo em diferentes conteúdos que produzimos, mesmo sem nunca termos falado de forma mais especifica sobre ele.

Isso porque as suas vantagens são tantas que o plantio direto já está presente em várias etapas e temáticas do processo produtivo de grãos.

Mas hoje, queremos fazer uma abordagem mais específica sobre o tema e também colaborar com a propagação dessa que se configurou como uma das maiores alternativas para a redução do impacto que a agricultura tem sobre a terra.

E, se por ventura, sabe pouco sobre o assunto, saiba que nós também queremos colaborar com o seu aprendizado.

Vale adiantar que a importância do plantio direto já é tamanha que hoje ele já é reconhecido como uma das técnicas mais sustentáveis de manejo e condução do sistema produtivo de grãos.

Seu formato inovador contrapõe a agricultura convencional e poluente que por muitos anos reinou no Brasil.

E se pararmos para pensar nos caminhos que estamos percorrendo, ecologicamente falando, o recurso veio em boa hora.

Isso que nem falamos ainda das vantagens econômicas que a prática proporciona, como redução de custos com insumos e maquinários.

O que é e como é feito; as vantagens e diferenças em relação ao sistema convencional; os benefícios para o solo e muito mais são apenas alguns dos tópicos que levantaremos a seguir.

Pareceu interessante? Então leia o artigo até o final porque ele foi feito justamente para você.

O sistema de plantio direto e as suas práticas de conservação do solo, felizmente, já são as tecnologias mais utilizadas pelos produtores rurais de grãos de todas as regiões do Brasil.

Segundo a Federação de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), a área cultivada sob esse sistema atingiu 35 milhões de hectares, na safra 2017/2018.

Os benefícios ambientais e financeiros trazidos pela técnica já são adotados por 96% dos produtores dos principais polos de produção de grãos do país.

A Região Sul do Brasil, com abrangência dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e metade-sul do Paraná, é a região que apresenta o plantio direto mais consolidado: 76% dos produtores afirmam usar o sistema há mais de 10 anos.

É o que nos mostram os resultados do Rally da Safra de 2017, estudo que avalia e estima anualmente a produção total de grãos brasileiros.

No período de 06 de janeiro a 09 de junho do ano passado, as equipes percorrem mais de 300 municípios brasileiros e avaliaram mais de 1.500 lavouras, a maioria tendo a soja como cultura predominante.

Deste cenário também são computados alguns dados preocupantes.

Dos 110 milhões de hectares cultivados com pastagens no Brasil, 70% deles se encontram em pleno estado de degradação.

O plantio direto, e já adiantando alguns dos seus benefícios, é uma das práticas agrícolas que tem a capacidade de fazer a recuperação destas áreas, em conjunto com sistema de integração entre lavoura-pecuária e outros.

Foi em 1971 que o Brasil deu os primeiros passos para promover a sustentabilidade da agricultura. Longe de ser o que representa hoje, alguns registros apontam o Instituto de Pesquisas Agropecuárias Meridional (o que mais tarde viria a ser a Embrapa) como pioneiro nos experimentos com plantio direto em lavouras do estado.

O início das atividades de mecanização intensiva no preparo do solo, o desmatamento e as chuvas erosivas da Região Sul, ainda na década de 70, foram fatores fundamentais que prosperaram a melhor forma de manejar e promover a qualidade do solo que conhecemos atualmente.

O Brasil é um dos três países que lidera a produção de açúcar, milho, soja e carne e quem protagoniza uma dicotomia há muito tempo pautada no universo Agro.

De um lado, a produção mundial de alimentos que deve aumentar em 70%, até 2050, para atender as mais 9,8 bilhões de pessoas que habitarão o Planeta até lá.

De outro, o desafio de ampliar a sua produção ‘‘sem botar nenhuma árvore a mais no chão’’.

A expansão responsável pode sim alimentar o mundo e fazer isso sem promover o desmatamento, a partir do uso de novas tecnologias e de ambientes agrícolas já explorados.

É nesse sentido que o sistema de plantio direto ou plantio na palha veio para nos salvar.

A técnica é baseada em três pilares:

♦️ No plantio com revolvimento mínimo do solo: o solo é movimentado somente na introdução das sementes e as operações tradicionais de preparo, como a aração e gradagem, são eliminadas;

♦️ Na rotação de culturas: a prática permite que o solo fique o ano todo coberto e os restos culturais mantidos são o que garantem cobertura e proteção contra as ações do tempo, das chuvas e demais intempéries climáticas.

♦️ Na formação da palhada: a palha garante proteção e manutenção do solo em tempo integral.

No sistema de plantio direto a palha é vista como o ‘‘seguro agrícola’’ da lavoura, pois ela atua protegendo o solo contra o impacto da gota da chuva que causa a erosão.

Funciona ainda como proteção contra a incidência direta dos raios solares e da ação dos ventos que promovem a perda de umidade.

A água é retida pela palha e assim o solo mantem níveis de umidade ideais para a germinação das sementes, o desenvolvimento das plantas e produção de grãos de qualidade.

A ocorrência de veranicos intensos no sul do Piauí e no Tocantins, na última safra, não impediu o enchimento com sucesso dos grãos de soja e nem a produtividade média de 40 sacas por hectare.

O segredo? Teve investimento na formação da palhada.

E a importância dela é tanta que produtores da mesma região, e que também cultivavam suas áreas sob o plantio direto, mas não investiram na palhada, tiveram uma drástica queda de 50% em termos de produtividade.

A divisa produtiva e ambiental entre os cultivos convencionais e os de revolvimento mínimo no solo é gigantesca.

Ao longo dos anos, a extração intensa de nutrientes da terra, no primeiro modo de cultivo, ocasiona a redução da fertilidade, de modo que a reposição somente com adubação não é suficiente.

A monocultura e a ausência de rotação de culturas também contribuem para a ocorrência, em vezes maiores, do aparecimento de doenças e plantas daninhas, inclusive as resistentes aos herbicidas como o glifosato.

É comum enxergarmos áreas sendo preparadas de maneira tradicional em épocas do ano mais chuvosas, como na primavera e no verão.

Inevitavelmente, os problemas com erosão hídrica aumentam, especialmente em solos arenosos que não possuem nenhum sistema de retenção das águas das chuvas.

Com isso, aumentam também os custos de produção e há uma forte queda na produtividade, devido, entre outras coisas, ao deslocamento das partículas do solo.

Pesquisadores e produtores já se convenceram: sem o advento do sistema de plantio direto no Brasil nenhuma outra tecnologia teria tido a eficiência que essa teve na elevação da produtividade das culturas.

A erosão, um dos principais problemas que a técnica atua manejando, teria impossibilitado o sucesso agrícola que temos hoje e incentivaria a expansão de novas áreas para compensar a redução da produtividade.

A cultura da soja não é somente a principal em termos de área no Brasil, mas também a que mais utiliza a tecnologia do sistema de plantio direto e que permite o avanço da técnica.

Em entrevista ao site Notícias Agrícolas, Jonadan Ma, presidente da Febrapdp, cita três principais desafios do sistema de plantio direto, especialmente o aplicado na cultura da soja.

Mas antes, Ma faz uma ressalva importante: o sistema não deve ser confundido com uma mera tecnologia e ele não deve se resumir apenas na dessecação da cultura e no uso de plantadeiras e semeadeiras que operem sem arar o solo.

Essas são apenas algumas das etapas dentro do grande processo, que nunca dever ser diminuído à elas.

Para ele, existem três premissas fundamentais que ainda faltam ser melhoradas e que limitam a expansão e o desenvolvimento do sistema de plantio direto no Brasil.

A primeira delas é a falta de rotação de culturas.

Tanto no Mato Grosso, maior produtor brasileiro de soja, como na maioria dos outros estados, a soja é plantada no verão e na sequência vem o milho safrinha que não faz rotação, mas sim sucessão com a primeira.

A segunda premissa fica por conta do revolvimento mínimo do solo.

O solo precisa ser preservado da maneira mais íntegra possível, mas não é difícil  ainda enxergarmos o uso de máquinas e equipamentos que ferem o solo, como os subsoladores e as grades niveladoras.

Por último, vem o desafio da cobertura permanente do solo.

Seja com uma cultura ou por plantas de cobertura, é essencial que a terra permaneça o ano todo coberta para preservar as suas características biológicas, físicas e químicas.

Para o entrevistado, adotar o plantio direto exige paciência e confiança do produtor. É necessário que ele entenda que os benefícios são construídos ao longo dos anos.

O solo que antes vinha sendo constantemente revolvido, precisa de tempo para se estabilizar. Esse tempo, em media, é de 2 a 3 anos.

Nesta conversão, vai ser comum que no primeiro ano haja uma queda de produtividade, por isso a paciência e a confiança, curva essa que se inverte com o passar dos anos e no aperfeiçoamento da técnica.

Por último, não podemos esquecer do grau de dificuldade que as culturas semiperenes, como a cana-de-açúcar e mandioca, enfrentam na otimização do plantio direto.

Para que essas culturas passem a usufruir de todos os benefícios do sistema e as utilizem em larga escala, ainda há um grande caminho a ser percorrido.

Mas é bom lembrarmos que esse mesmo caminho também foi percorrido pelos agricultores e técnicos das culturais anuais, como a soja, e que hoje esbanjam sucesso.

Porém, os últimos estudos veem se mostrando promissores e trazendo a possibilidade da adoção total do cultivo direto por culturas anuais e semiperenes.

Mas uma coisa é certa: é cada vez maior o número de produtores que se convencem que redução da erosão hídrica; redução de custos; otimização do tempo e maior aproveitamento das culturas são objetivos conquistados, antes de mais nada, com a adoção da técnica de manejo chamada plantio direto.

 

Fontes: Revista A Granja (plantio direto e os seus desafios em diferentes manejos; importância da cobertura morta para a qualidade do solo; plantio direto e a resiliência à intensificação das intempéries; raio x do plantio direto na agricultura brasileira; expansão responsável por alimentar o mundo sem desmatar); Federação de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp); Notícias Agrícolas e Embrapa.