28. Esse é o número de espécies de plantas daninhas que atualmente são resistentes aos herbicidas de vários tipos no Brasil, incluindo o glifosato, ingrediente ativo indispensável para a produção da soja.

A problemática fez o Brasil ocupar a quinta colocação no ranking dos países com maior número de casos de resistência a herbicidas. Ficamos atrás apenas dos EUA, da Austrália, do Canadá e da França.

E o número de produtores que já relataram a resistência das daninhas em sua produção, somente neste ano, também é preocupante. Atualmente, são cerca de 50 casos, mais os que não foram registrados formalmente.

Os dados foram apresentados durante o XXXII Congresso Nacional de Milho e Sorgo, em Lavras, MG.

A resistência das plantas daninhas é dor de cabeça antiga para os produtores rurais brasileiros e um cenário que compromete a produtividade da maior parte da agricultura do país.

Quando falamos que a produtividade está sendo atacada, automaticamente nos referimos a perdas econômicas que ultrapassam os percentuais permitidos para a produção agrícola.

A soja, oleaginosa com maior volume de produção mundial, é a terceira cultura que mais padece com a existência de daninhas que sobrevivem a exposição dos herbicidas indicados para o seu extermínio. Milho e trigo estão nas primeiras posições.

Estima-se que o custo com a resistência, somente na área de soja do Brasil, está entre 3 e 6 bilhões de reais ao ano.

Além do aumento de custos e da perda da eficiência das tecnologias, existem outros dados que tornam a situação ainda mais grave.

Um deles é que desde a década de 90 nenhum novo mecanismo de ação de herbicidas que controle ou faça o manejo das pragas foi lançado no mercado, enquanto que o número de espécies com algum teor de resistência ou tolerância aumenta a cada ano.

Por vezes, a entrada das daninhas na lavoura é possibilitada por simples descuidos dos produtores, como transitar com máquinas agrícolas que tenham vindo de regiões infestadas.

Embora toda e qualquer praga tenha como competência evoluir e se adaptar às mudanças do ambiente e dos ativos usados para seu controle, o uso incorreto dos defensivos é um ponto chave para o surgimento da resistência.

Esses são apenas alguns dos tópicos que abordaremos de forma mais ampliada no decorrer no texto.

Então, não perca o embalo e continue conosco!

É comum ouvir as pessoas dizendo que as plantas daninhas criaram resistência aos herbicidas ou que o próprio herbicida causou a resistência.

A verdade é que essas afirmações estão erradas e explicamos o porquê.

É de ocorrência natural de todos os tipos de pragas possuírem mecanismos de defesa que as fazem sobreviver quando são expostas a ambientes diferenciados e às suas condições.

O mesmo acontece quando os herbicidas entram em contato com elas.

Logo, dizemos que uma planta é considerada resistente quando ela tem a habilidade de sobreviver e se reproduzir após ter sido submetida a uma dose de herbicida considerada letal para aquela população.

Quando são utilizados os mesmos tipos de herbicidas ou herbicidas diferentes, mas com iguais mecanismos de ação, se promove uma pressão de seleção das plantas daninhas.

Essa pressão vai selecionar indivíduos (plantas daninhas) que possuem carga genética diferenciada ao ponto de impedir a eficácia do herbicida.

Os indivíduos que sobrevivem são constituídos por biótipos muito resistentes e podem até produzir descendentes com carga genética semelhante, aumentando significativamente o número de indivíduos resistentes em relação aos suscetíveis.

Em resumo, ‘‘o surgimento da resistência ocorre pelo processo de seleção de biótipos resistentes, já existentes na população presente nas áreas de produção, em função de aplicações repetidas e continuadas de um mesmo herbicida ou de herbicidas com mesmo mecanismo de ação, durante determinado período de tempo’’ (Mais Soja).

Mas não somente os herbicidas são alvos da resistência. Fungicidas e inseticidas também são prejudicados pelo problema, impactando de forma negativa a economia e a produtividade agrícola, já que os custos com controle aumentam significativamente.

Por fim, há casos em que uma mesma espécie de daninha pode ser resistente a mais de um tipo de herbicida.

É graças a ampla variedade genética que possuem que as plantas daninhas são capazes de se adaptarem e sobreviverem nas mais diferentes condições ambientais do ecossistema.

Estratégias de manejo empregadas de forma isolada ou errônea, como uso repetitivo de herbicidas que agem de um mesmo modo, em um logo período de tempo, favorecem a adaptação de biótipos resistentes aos defensivos.

Elas disputam igualmente com as plantas saudáveis por água, luz, umidade, nutrientes e espaço e se não forem combatidas com antecedência podem causar danos irreparáveis na lavoura.

A inviabilização de herbicidas, o aumento dos custos de controle, a busca por alternativas e a perda do rendimento e da qualidade dos grãos agrícolas são apenas alguns exemplos dos estragos que as daninhas podem fazer.

Elas ainda podem ser resistentes de forma cruzada ou múltipla.

A resistência cruzada ocorre quando a daninha se opõem a dois ou mais herbicidas diferentes, mas que possuem o mesmo mecanismo de ação.

Do contrário, a resistência múltipla acontece quando o biótipo é resistente a herbicidas diferentes, porém com mecanismos de resistência distintos.

São os mecanismos de ação dos herbicidas que impedem o crescimento e o desenvolvimento normal das plantas daninhas. Os herbicidas são classificados conforme a sua composição química e também em relação ao mecanismo de atuação nas plantas.

Algumas espécies são ainda tolerantes aos herbicidas. Isso significa dizer que elas conseguem tolerar as dosagens recomendadas, sem que ocorram alterações marcantes no seu desenvolvimento.

Hoje, as espécies resistentes que mais preocupam os produtores são o azevém, a buva, o capim-amargoso e o capim pé-de-galinha.

Os envolvidos na problemática defendem uma discussão urgente sobre a questão da resistência no Brasil.

Além do impacto econômico, que vai variar conforme a infestação, o produtor precisa ainda de medidas alternativas para minimizar ou conviver com a resistência em sua propriedade, já que em muitos casos a quantidade recomendada não controla a invasora e o produto acaba sendo desperdiçado.

No ano passado, a buva, que já era resistente ao glifosato, tornou-se resistente também ao Paraquat. E o motivo foi justamente por causa do seu uso de forma sequencial, sem rotação com outros produtos.

Todos os anos, novas invasoras apresentam novos graus de agressividade na lavoura e tornam-se cada vez mais adaptáveis às diversidades climáticas de várias regiões produtoras.

A resistência de plantas daninhas não deve ser tratada como um problema isolado. Ela está presente na produção dos três principais grãos brasileiros, os mesmos que impulsionam o nosso país como produtor mundial.

Como foi possível perceber com os enfoques que trouxemos no texto, o agravamento da situação se deu quando os herbicidas começaram a ser usados sem cautela e estudos, fazendo com que as daninhas tomassem as suas providências.

Os estímulos naturais da planta apareceram e hoje estamos presenciando a produção agrícola ser praticamente reféns delas.

Se foi devido a falta de informação que os herbicidas foram usados de maneira equivocada, onde estavam os órgãos responsáveis por passar essas informações aos produtores na hora da aplicação dos produtos?

E para onde estão indo os investimentos na agricultura que não na produção de herbicidas que atuem com novos modos de ação?

O produtor, é claro, precisa também fazer a sua parte e adotar cada vez mais um manejo rígido, do início ao fim da plantação e usar todas as tecnologias que forem possíveis a favor da sua produtividade.

Mas por outro lado, ele precisa ter acesso a informações cruciais através de visitas técnicas e promoção de cursos e palestras que o tornem cada vez mais capaz de lidar com a questão da resistência das daninhas.

Dessa forma estaremos dando continuidade a tão grandiosa agricultura que temos, sem temer que novos riscos nos impeçam de produzir e entregar o alimento que todos necessitam.

 

Fontes: Embrapa (Plantas daninhas resistentes aumentam custo de produção de soja); Grupo Cultivar (Daninhas e resistentes); Mais Soja (Impacto econômico da resistência de plantas daninhas a herbicidas no Brasil); Mecanismo de ação dos herbicidas (ESALQ/USP); Monsanto (Manejo de resistência de planta daninhas); Pioneer (plantas daninhas resistentes: cenário atual e estratégias de manejo em milho e soja); Portal DBO (Resistência de plantas daninhas a herbicidas preocupa agricultores); Projeto Soja Brasil (safra 2017/2018: a resistência de plantas daninhas); Revista A Granja (O indispensável tratamento fitossanitário); Revista Visão Agrícola (Cresce a resistência de plantas daninhas a herbicidas).