Atualmente, a produção agrícola brasileira está em uma verdadeira gangorra.

Ao mesmo tempo em que lideramos como mercado exportador de muitos produtos e que somamos a segunda maior safra de grãos da história, somos o país dono do mais elevado custo de produção agrícola.

Produzir no Brasil é, em média, 79% mais caro que produzir na Argentina e 32% a mais que no Uruguai, dados que foram constatados pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), em estudo que comparou os custos de produção agrícola dos países do Mercosul.

Produção e produtividade avantajadas não são suficientes em um cenário global, no momento em que os nossos custos operacionais com a produção de grãos nos colocam em desvantagem competitiva frente aos demais países produtores dos mesmos grãos que os nossos.

No Mato Grosso, maior estado produtor brasileiro de Soja, o custo de produção da oleaginosa, na última safra, foi estimado em R$ 2.914,62 por hectare.

O Custo Operacional Total (COT) – que é composto pelas despesas com insumos, com operações agrícolas, com atividades administrativas e com depreciações – correspondeu a 79,7% dos custos totais da produção.

Desses quase 80%, os insumos tiveram uma média de participação de 47,4%.

Fertilizantes e sementes, quando analisados separadamente, são os principais componentes que proporcionam o percentual elevado dos custos de produção agrícola no Brasil.

E se voltarmos a nos comparar com os nossos vizinhos, como a Argentina e o Uruguai, os números ficam desta forma:

 

Enquanto que produtores brasileiros são impossibilitados de adquirir insumos do exterior para proteger a indústria local, nossos adversários (economicamente falando) compram os agroquímicos de onde quiserem e ainda passam a ser vistos como produtores diferenciados por isso.

Somos um país sem abertura econômica e, portanto, o que mais paga pelos itens necessários para o cultivo.

A carga tributária brasileira também é responsável por encarecer nossos custos e diminuir nossa competitividade global diante de outros mercados, um dos maiores prejuízos que essa conjuntura nos ocasiona.

Ela justifica, de maneira bem clara, porque os produtores rurais brasileiros adquirem os seus produtos a preços tão mais altos que os concorrentes e também o porquê dos nossos custos agrícolas serem os mais altos do mundo.

Com a tabela abaixo, que também faz parte do estudo realizado pela Farsul, podemos constatar que o Arroz é a cultura com a maior carga tributária embutida nos seus custos de produção (30,26%), seguida do Milho (27,10%), Soja (27,05%) e Trigo (26,12%).

Ciclo dos CustosArrozMilhoSojaTrigo
Insumos22,91%23,13%23,06%22,84%
Serviços Agrícolas32,28%33,09%32,79%28,18%
Manutenção e Distribuição38,70%33,91%27,36%35,83%
Colheita35,83%35,83%35,83%32,36%
Total30,26%27,10%27,05%26,21%

Carga Tributária, por fase da produção e no Custo Operacional Total, das principais lavouras, na média do Brasil em 2013. Fonte: Farsul.

 

O fato do valor do produto final ser sempre imune de aumentos, diferente dos custos com insumos e processo produtivo, acarreta em créditos que nunca serão compensados e requer cuidados redobrados dos produtores rurais, no que diz respeito a Gestão do seu negócio para se afastar das Dívidas.

A margem de lucro do produtor rural fica cada vez mais apertada no momento em que ela não cresce na mesma proporção que crescem os gastos com fretes, combustíveis e logística, outros fatores que pesam muito nos custos produtivos.

Enquanto o uso da tecnologia faz do Brasil o segundo maior exportador de produtos agrícolas do mundo, a falta de investimentos em logística e infraestrutura faz com que boa parte dos ganhos com produtividade fique pela metade do caminho.

Ou seja, com rodovias, ferrovias e portos precários ou com o uso impossibilitado, o gasto com fretes no Brasil acaba sendo quatro vezes maior que os praticados no mercado internacional por seus competidores, como Estados Unidos e Argentina, por exemplo.

Ainda pegando como exemplo os produtores de Soja do estado do Mato Grosso, uma constatação triste: o valor cobrado pelo frete no estado leva embora boa parte do lucro dos sojicultores.

Quando os números são colocados na ponta do lápis é verificado que para levar um saco de Soja até o porto o produtor precisa vender dois somente para pagar o frete.

Cerca de 30% do custo da soja está no frete. 30% de uma saca de 60 quilos são 20 quilos. 20 quilos de uma única saca somente para pagar o transporte dos grãos.

E o peso dos impostos também incide sobre as máquinas e os equipamentos agrícolas que apresentam uma carga tributária que varia de 26 a 30%. Se houvesse a isenção dos impostos sobre essas máquinas, um quarto do preço cobrado por elas poderia ser diminuído.

O que é necessário, então, que seja feito para deixarmos de ser um dos países mais caros em termos de produção agrícola e deter de condições mais justas de competição no mercado a fora?

A lucratividade do agronegócio consiste em driblar as oscilações do câmbio e o impacto que a relação entre dólar e real tem nos custos de produção.

A Farsul explica: ‘‘Quando o câmbio sobe, os preços dos insumos sobem de elevador, mas quando cai, os preços descem de escada’’.

Para isso, é preciso que:

✔️ Novas formas de escoar a safra sejam possibilitadas, através do reestabelecimento de novas vias como as Ferrovias e os Portos;

✔️ A criação e a manutenção de ferramentas e de políticas públicas de comercialização da safra sejam asseguradas e apoiadas pelo Governo, a fim de garantir preços justos e a renda final do produtor;

✔️ Vencer a alta carga tributária presente no agronegócio e buscar por uma abertura comercial de maneira que os nossos custos sejam equivalentes aos custos de produção dos demais países;

✔️ Reivindicar por mudanças na legislação através da organização política de produtores e setores prejudicados.

A pluralidade de desafios torna a tarefa de termos os nossos custos de produção igualados aos dos nossos vizinhos ainda mais difícil, especialmente porque precisamos reivindicar por algo que deveria ser nosso por direito.

O que não podemos é deixar que a nossa autonomia se perda em meio a estes desafios.

 

Fontes: A carga tributária brasileira e a abertura econômica para os custos de produção (Farsul); G1.globo (Aumento do custo de produção da soja preocupa produtores de MT; Setor agrícola aponta desafios e soluções para ampliar as vendas); Canal Rural (Custos operacionais na produção de grãos colocam Brasil em desvantagem frente a outros países); Compre Rural (Com aumento do custo de produção o ano se torna difícil para agricultura); Estadão (Um caminho de alto custo); Embrapa (Viabilidade Econômica da Cultura da Soja para a Safra 2017/2018, em Mato Grosso do Sul).