A safra 2018/2019 de grãos já está batendo na nossa porta.

Muitos não imaginam, mas a agricultura é formada por uma verdadeira sequência de atividades que nunca cessam.

Quando pensamos ser o momento de descanso do produtor, após longas negociações para vender e escoar os produtos do ciclo anterior, vem o período que antecede a colheita e que é um dos mais decisórios e marcados por incertezas.

É uma época de acompanhamento e de planejamento de práticas que colaboram para melhorar a rentabilidade da lavoura.

As decisões assumidas nesta fase terão um importante reflexo sobre as contas ao final da colheita.

Por isso, não deixar nada para ser pensado depois e manter-se sempre antenado nas tendências para as commodities já caracteriza dois bons primeiros passos.

Isso porque não somente os julgamentos feitos pelo produtor rural são suficientes. A agricultura é uma das atividades mais penalizadas por interferências externas.

E tamanha é a intervenção ao passo que toda a produção corre riscos devastadores, mesmo com todas as ameaças sendo levadas em conta com bastante antecedência.

Embora hoje em dia o que não falte sejam soluções com uma pegada mais tecnológica para resolver impasses de diferentes naturezas, mais do que utilizar essas tecnologias como diferencial produtivo é importante usá-las de maneira eficiente, reconhecendo a viabilidade econômica (ou não) antes de qualquer investimento.

As primeiras estimativas para 2019 já estão sendo noticiadas a todo vapor. São hipóteses aproximadas, mas baseadas em pesquisas e nas próprias percepções dos produtores, levando em conta os acontecimentos da última safra.

Além dessas estimativas, nós nos preocupamos em reunir uma série de fatores que de uma forma ou outra podem impactar os números finais da colheita, a economia e o bem estar do produtor.

Esses fatores foram divididos em quatro grupos denominados 1- Políticas; 2- Intempéries Climáticas; 3- Comercialização e 4- Medidas iniciais, que, contraditoriamente, falaremos por último.

Eles estão separados em grupos conforme suas semelhanças, mas vale ressaltar que a atuação destes no agronegócio praticamente acontece de forma simultânea.

Desejamos uma boa leitura!

O ano é de eleições e elas automaticamente afetam a economia que começa a enfrentar um clima de instabilidade.

As ações na Bolsa de Valores despencam ou disparam na mesma intensidade do índice de aprovação dos candidatos.

É interessante que tenhamos o mínimo de conhecimento sobre essas questões porque é a partir delas que o mercado se organiza e que os preços dos produtos agrícolas se formam.

Essa interferência afeta diretamente nos custos de produção, podendo diminuir o percentual de lucro do produtor.

Ainda na contramão dos lucros temos o tabelamento do frete, Medida Provisória de número 832 adotada pelo Governo Federal para atender as reivindicações dos caminhoneiros que pararam o Brasil em uma grande greve nacional, no final de maio deste ano.

A questão é vista por organizações do setor Agro como um ‘‘impasse’’ e como uma maneira ‘‘que o Governo encontrou de não resolver o problema e transferir o ônus para a sociedade’’.

O período que antecede a safra 2018/2019 também está sendo marcado pela indefinição do dólar, que como já comentamos, atinge em cheio o preço das commodities.

Nesse contexto, recomenda-se que os agricultores tenham cautela e que somem seus gastos para não correrem riscos financeiros desnecessários.

E por falar em riscos, o novo Plano Safra, anunciado em junho, embora que com um aumento em crédito de 1,5%, já foi criticado por não ser suficiente para atender as demandas do setor e as necessidades dos produtores, especialmente os que buscam por maiores facilidade de crédito e juros mais baixos.

O objetivo do Plano é financiar a atividade agropecuária e cobrir as linhas de crédito existentes, mas esquece de levar em conta que produtores rurais endividados, os que mais precisam dos custeios, são os que mais encontram dificuldades de acessar esse crédito.

Por fim, no início deste mês o produtor rural foi surpreendido com a notícia sobre a decisão judicial que determinava a suspensão do registro de produtos químicos que continham Glifosato, substância que compõe os Herbicidas e que é usado em larga escala no Brasil.

A proibição está sendo vista como um desastre para a agricultura, podendo inviabilizar o cultivo de um dos principais grãos do país, o Soja, pois a substância facilita o manejo e o combate de pragas invasoras na folha.

Clima e agricultura são um elemento só, visto que estamos nos referindo a atividade mais impactada pelas alterações climáticas.

As projeções feitas ainda no início do ano e que informavam altas probabilidades de ocorrência do fenômeno El Niño estão confirmadas já para o segundo semestre deste ano.

Todos os modelos apontam chances de manifestação do fenômeno em até 80%.

Isso quer dizer que as chuvas ocorrerão em maiores quantidades na Região Sul do país e em volume abaixo do normal nas Regiões Norte e Nordeste.

O El Niño deste ano, porém, não deve atuar com a mesma força de intensidade do ocorrido na safra 2015/2016, quando foram precenciadas inúmeras perdas nas lavouras e nas estradas gaúchas, como a derrubada de pontes e cabeceiras pela força da água.

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático, estudo que apresenta os elementos climáticos que influenciam no desenvolvimento dos grãos, considerou a Região da Campanha, no Rio Grande do Sul, como uma área de risco para o cultivo do Soja.

A constatação põe em cheque o desenvolvimento da Região que viu no grão uma alternativa para a falta de rentabilidade da lavoura arrozeira.

Em cinco anos, a área plantada da oleaginosa nessa parte do estado saltou de 15 para 100 mil hectares.

A avaliação das informações decorre ainda sobre o aumento de custos com a contratação de seguros, dificuldade na liberação de custeios e baixa na produção que pode impactar outras regiões do país.

Com a adoção do vazio sanitário, período em que é proibido o cultivo de algumas plantas para reduzir a aparição de pragas e doenças, o Brasil espera colher uma safra recorde de 244,7 milhões de toneladas, 6,3% acima da última temporada e uma área de cultivo de 63,1 milhões de hectares, 2,2% a mais que em 2017/2018.

De janeiro a julho deste ano o agronegócio registrou um novo recorde de exportações. Foram US$ 59,21 bilhões arrecadados com vendas externas.

Isso representa 43,4% do total comercializado pelo Brasil em todas as outras áreas.

O destaque foi para as vendas do complexo Soja que somaram US$ 27,26 bilhões, seguidas da Soja em grão (US$ 22,50 bilhões) e do farelo de Soja (US$ 4,06 bilhões).

Por parte das importações, o milho será o produto que protagonizará as compras brasileiras nos mercados ao lado, em consequência de uma maior procura do grão e das chances de redução da nossa safra devido às adversidades climáticas ocorridas entre abril e maio.

O aumento dos custos totais com a produção ocasionado pelo tabelamento do frete também está colaborando para que as indústrias tomem a mesma iniciativa.

O maior frigorífico do mundo, o JBS, irá receber 60 mil toneladas do cereal, que serão destinados para ração.

Isso tudo porque importar milho dos países vizinhos está saindo mais em conta do que trazê-lo do Mato Grosso, por exemplo.

Em 2017, o Brasil importou cerca de 1 milhão de toneladas de milho.

E se o preço pago pela locomoção dos nossos grãos sofreu um reajuste tão alto, então automaticamente os custos logísticos do produtor também aumentarão.

Esses dados indicam que o dinheiro destinado às despesas para a safra 2018/2019 precisa ser cada vez melhor selecionado e que, mais do que nunca, é hora de ficarmos de olho nas variações do mercado e estudar o melhor momento tanto de compra como de venda dos produtos e insumos.

Não foi atoa que decidimos falar por último das medidas ditas como iniciais para a abertura de mais uma temporada agrícola.

A nossa intenção é mostrar que não somente saber o que, quando e onde plantar são suficientes parar produzir safras recordes.

Ao agricultor, de pequeno a grande porte, é exigida a posse de saberes, mesmo que iniciante, de diversas áreas do conhecimento: economia, geografia, informática e por aí vai.

O entendimento dessas propostas é o que lhe colocará em uma condição de empreendedor e tornando-se competitivo, com foco na geração de um produto de qualidade que atenda as expectativas do mercado.

E mais do que isso: farão com que os desafios já falados para esta nova safra possam ser superados de forma mais prática.

E para gerar esse produto de qualidade é preciso que a escolha da área agrícola seja uma escolha inteligente e muito bem estudada para ela se tornar o primeiro elemento colaborador para a redução dos custos.

Por isso, conheça o perfil e as características do solo e da planta e se encarregue de confirmar se ambos são compatíveis e quais são as suas maiores necessidades em termos de disponibilidade de água e exposição solar.

Una as demandas do cultivo com os benefícios que a Região que ele for cultivado tem a oferecer. Respeite prazos de plantação e colheita e tenha sempre em mãos o Calendário Agrícola, ferramenta indispensável para todos os produtores rurais.

Com as condições climáticas variando fortemente de uma região para outra, o que é plantado no Sul do Brasil, por exemplo, não terá um bom desenvolvimento se plantado no Nordeste.

Estudado isso é hora de ir atrás de sementes de qualidade capazes de gerar plantas de alto vigor e proporcionar um ótimo desempenho na lavoura.

Recomenda-se que a compra de sementes e de insumos químicos acompanhe as oscilações do mercado e seja feita com antecedência e com a devida orientação técnica.

Não deixe também de estudar soluções alternativas para todos os métodos escolhidos, visto o percentual de riscos que a agricultura está exposta.

Considere ainda todos os estudos e pesquisas que são feitos na região em que está instalada a sua cultura e use isso a seu favor para a tomada de decisões mais conscientes.

Busque por fornecedores que entendam bem o produto que vendem e tenha em mãos o maior número possível de dados sobre a sua produção, para que o trabalho dele de fato consiga corrigir o seu.

Invista em tecnologia, desde máquinas a aplicativos, e na qualificação de seus funcionários. Se você for sozinho, capacite-se e não tenha medo do arsenal de opções hoje existentes que alavancam uma agricultura mais moderna.

Anote tudo e faça comparações de custos de uma safra para outra. Dedique algum tempo do seu dia para administrar no papel o seu negócio.

E lembre-se: somente a experiência de anos com a prática agrícola irá trazer resultados mais certeiros.

Essas medidas não impedirão que as adversidades como tempo e mercado atinjam você, mas vão possibilitar que essas adversidades sejam enfrentadas com maior segurança.

Até a próxima!

Fontes: Notícias Agrícolas, G1.globo, MAPA, Organizze: Finanças Pessoais, Cogo: Inteligência no Agronegócio, Revista A Granja, Silo Editora, Agrolink, Successul Farming Brasil.