Com certeza você já deve ter ouvido ou lido sobre o impacto das mudanças climáticas no planeta. certamente esse assunto amedronta ou causa desconforto. O motivo está nas estatísticas que com frequência são apresentadas nos noticiários.

De acordo com os dados divulgados no Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, órgão científico criado pelos Ministérios da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente, o Brasil poderá perder cerca de 11 milhões de hectares de terras agriculturáveis por causa das alterações climáticas até 2030.

Levando em conta os cenários do futuro do Planeta, que envolvem crescente demanda por alimentos versus escassez dos recursos naturais, o cálculo acima não é nada satisfatório.

E se destacarmos que a agricultura é a atividade mais impactada pelas alterações climáticas, a conjuntura que já era ruim, piora.

Dada a importância da prática agrícola como meio de subsistência da população e a incontestável influência do clima sobre ela, a discussão aqui ofertada adquire uma nova importância.

Da seleção das áreas que se tornarão cultiváveis até o planejamento das operações de curto, médio e longo prazos, o clima sempre será o fator mais levado em conta.

Este artigo tem o propósito de estimular o pensamento coletivo acerca dos efeitos e das medidas que podem ser adotadas para frear as consequências desta realidade, capaz de causar ao agronegócio e ao produtor rural danos irreversíveis na lavoura.

As mudanças climáticas são variações que ocorrem nos fatores climáticos, tais como temperatura, precipitação e nebulosidade. As alterações são percebidas quando as médias desses fatores são comparadas com médias históricas.

O clima, por si só, passa por mudanças naturais no decorrer dos tempos. Entretanto, as alterações mais recentes e graves estão sendo fruto das atividades humanas.

No ano de 2017, o quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontou a ação humana como a grande responsável pelas modificações bruscas das alterações climáticas.

Com a Revolução Industrial, no final do século XVIII, houve um aumento significativo da produção industrial e agrícola. A consequência foi e está sendo, até hoje, a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

O assunto tornou-se o mais relevante de todos os tempos e tomou as agendas dos governos de todo o mundo e da sociedade civil.

Por meio da emissão de gases poluentes na atmosfera, como o dióxido de carbono (CO²), que também contribuem para o aquecimento da Terra, os eventos climáticos passam por bruscas alterações, ocasionando secas, furacões, enchentes, elevação do nível do mar, regime de chuvas e etc.

A queima de combustíveis fósseis para a geração de energia e a devastação desenfreada de áreas florestais, para diferentes fins, são as principais responsáveis pela emissão desses gases prejudicais ao ambiente.

O fenômeno é complexo, multidisciplinar e abrangente e, de uma forma ou de outra, suas consequências afetarão a todos, em todos os lugares, como está apontado no livro Educação Ambiental&Mudanças Climáticas, do Ministério do Meio Ambiente.

Os chamados eventos externos, como a prolongada onda de calor e incêndios que devastou florestas e áreas cultiváveis na Rússia, em 2010, ou as chuvas na Região Serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, considerada a maior tragédia climática da história do país, parecem confirmar os impactos alertados por pesquisadores sobre as Mudanças Climáticas no Planeta.

Os relatórios trazem, ainda, algumas informações interessantes referentes ao Aquecimento Global. A década de 1980, antes considerada a mais quente da história desde 1880, foi facilmente ultrapassada pela de 2010.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, OMM, a temperatura média nessa última década na superfície do globo, incluindo parte terrestre e marítima, foi de 14,46°C, contra 14,25°C em 1991- 2000 e 14,12°C em 1981-1990.

As mais importantes e diferentes pesquisas científicas apontam um ‘‘não retorno’’ das condições climáticas adequadas na terra se a destruição e degradação dos ecossistemas seguir no fluxo acelerado que se encontra, devido ao agravamento do aquecimento global, que é o principal responsável pelas mudanças do clima.

Desta forma, são urgentes as mudanças de posturas que precisamos tomar para que haja a redução da emissão de gás carbono e demais gases que colaboram com o efeito estufa, bem como voltar um olhar mais cauteloso para as parcelas da população mais vulneráveis a eventos externos.

Dentre as mudanças de posturas que podemos adotar, estão:

✔ Adoção de novas escolhas no estilo de vida de nossa sociedade;

✔ Mudanças de atitudes individuais e coletivas na relação com o meio natural

✔ Mudanças de valores no uso e na apropriação dos recursos e fontes energéticas

✔ Experimentação de diferentes alternativas de postura em relação a manutenção da vida na Terra.

Como já afirmamos, a agricultura é a atividade mais impactada pelas mudanças climáticas. As alterações nas condições normais do clima, como temperaturas extremas e excesso ou falta de chuvas, afetam não somente a produção, mas também os moradores e os animais que dependem da qualidade produtiva do local afetado.

O acumulo dos gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, aumentaram cerca de 40, 150 e 20%, respectivamente, desde o início da Revolução Industrial. Estes são os gases responsáveis pelo aumento da temperatura do Planeta, o popular Aquecimento Global, e que trazem as mais negativas consequências para as diferentes formas de vida existentes.

No momento em que as culturas precisam de solo, disponibilidade de água e calor apropriados para crescerem, toda a produção fica prejudicada quando estes fatores são alterados.

As mudanças climáticas também agem diretamente no aparecimento de insetos e demais pragas nocivas à lavoura.

O aparecimento de microrganismos fitopatogênicos, nome dado aos organismos que causam doenças nas plantas, são as primeiras evidências das mudanças climáticas nas vegetações, pois começam a formar numerosas populações, se multiplicando com grande facilidade, além de terem curto tempo de uma geração para outra.

A segurança alimentar de boa parte do Planeta, a economia e a produtividade das terras já estão ameaçadas se as condições atuais forem mantidas. Estudos feitos por pesquisadores da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, indicam uma perda de R$ 7,4 bilhões na safra de grãos, já em 2020. O número dobraria, passando para R$ 14 bilhões, em 2070.

O cenário mais provável é uma significativa redução no número de áreas cultiváveis em todo o país, além da migração de muitas culturas para regiões que ainda não são cultivadas.

Estados considerados como maiores produtores nacionais podem perder seu potencial de produtividade antes mesmo do final do século. Culturas consideradas básicas para a alimentação, como o arroz, que necessita de maiores quantidades de água, teriam sua produção reduzida.

A cultura da soja seria a mais afetada pelas alterações das condições climáticas, especialmente no sul do Brasil, devido ao estresse hídrico que as plantas sofreriam.

Nos mais pessimistas dos contextos, a mandioca, por exemplo, desapareceria da Região do Semiárido. Os problemas com erosão dos solos e escoamento da água se intensificariam gradativamente.

Já sabemos que a sustentabilidade do nosso ecossistema está ameaçada e que não é de hoje. As atitudes para converter, o máximo possível, as projeções que nos aguardam precisam partir, antes de tudo, de autoridades governamentais através do planejamento de estratégias de produção viáveis que englobem tecnicidade, economia, sociabilidade e ambientalidade.

A ciência e os estudos responsáveis pelo acompanhamento das últimas alterações devem ser incentivados, pois elas funcionam como um feedback do progresso, ou não, do Planeta frente aos acontecimentos apresentados e direcionam para as próximas decisões a serem tomadas.

A tecnologia agrícola, através do armazenamento de dados e da grande capacidade de fomentar a racionalização dos recursos, é um fator a mais que colabora em busca de uma agricultura mais sustentável.

O foco deve ser totalizar o número de propriedades agrícolas que disponham dessa tecnologia. A partir disso, será possível arquitetar uma lavoura preparada para gerir riscos e mais propensa a trabalhar com as futuras mudanças.

A ciência também deve continuar atuando na criação de variedades genéticas mais tolerantes as modificações do tempo, como seca, frio e inundações.

Essas mesmas variedades com maiores graus de adaptação poderão ser usadas ainda em praticas agrícolas como a rotação de culturas, que acarreta em ganhos sustentáveis ao solo e ao produtor.

O planejamento agrícola será cada vez mais indispensável e será incrementado com novas questões, como por exemplo, o ajustamento das datas de semeadura conforme os níveis de seca ou precipitações aguardados para a região.

Quando não pudermos mudar o que já está inserido na nossa realidade, que possamos ao menos nos adaptar e adotar novas ações que não dificultem ainda mais a sustentabilidade da nossa única fonte de vida.

 

 

Fontes: Agência Europeia do Ambiente, Agritempo, Agrosmart, Embrapa, Jacto, Ministério do Meio Ambiente, Projeto Draft e Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura