Se você acompanha os noticiários já deve ter percebido que o Brasil está climaticamente dividido.

Enquanto que já passa de 10 o número de municípios no estado do Rio Grande do Sul em situação de emergência devido às enchentes, Paraná e Mato Grosso do Sul seguem castigados pela ausência de chuvas.

Grãos pequenos, desuniformes e de baixa qualidade ou apodrecidos nas vagens são os primeiros sinais de alerta de ambas as situações.

E as perdas expressivas já começam a ser constatadas.

No oeste do Paraná, no município de Medianeira, áreas de soja antes com potencial de produção em 65 sacos por hectare, passam a ser aguardados apenas 10.

A notícia boa é que situações de calamidade também trazem importantes ensinamentos.

Um deles é a adoção de técnicas de manejo que auxiliam as plantas e seus sistemas a sobreviverem em períodos extremos e, consequentemente, diminuir as perdas.

Em resumo, mostraremos como o conceito de tecnologia também pode estar atrelado ao emprego de práticas agrícolas de conservação do solo e uso racional de insumos.

Falaremos agora da relação que o Sistema de Plantio Direto tem com períodos de estiagem na lavoura.

Além disso, iremos esclarecer uma frequente confusão que acontece nas lavouras de todo o país e que é responsável pela estagnação dos índices de produtividade.

Então vamos lá!

A relação entre Plantio Direto e estiagem

Antes de qualquer coisa precisamos levantar uma importante questão quando falamos em técnicas de manejo.

Não existe homogeneidade em um mesmo bloco de terra.

O que funciona em uma parte da lavoura pode não funcionar em outra parte e em momentos diferentes.

Essa premissa já foi levantada aqui nosso blog no texto intitulado ‘‘Porque o agro do Brasil alcançará um trilhão de dólares em 2027’’.

Nas palavras de Marcos Fava Neves, o hectare morreu e deu lugar ao metro quadrado.

O que vigora agora é o controle de pragas localizado, com toda a tecnologia disponível sendo usufruída para evitar o máximo de desperdício.

Lembrar que um mesmo pedaço de terra não é homogêneo é o primeiro passo para entendermos porque em áreas do Paraná, por exemplo, mesmo com o Sistema de Plantio Direto (SPD) tendo sido aplicado a estiagem devastou bons hectares de soja.

O segundo, de acordo com a professora e pesquisadora Marie Bartz, é descobrir se os produtores rurais estão introduzindo o Plantio Direto apenas como técnica ou como efetivamente ele deve ser:

‘‘Na técnica em si e a forma como o Plantio Direto nasceu, o agricultor plantava sobre a palhada para evitar a erosão’’.

Marie continua e explica que o Sistema evoluiu e que hoje tem como regra três princípios:

?Mínimo revolvimento do solo;

? A manutenção permanente da palhada (seja ela viva ou morta e

? Rotação de culturas atrelada a adubação verde.

Qualquer falha em algum destes três pontos já é suficiente para começar a aparecer os problemas.

Falar sobre Plantio Direto é falar de modificações mais resistente no solo, na estrutura dele e não somente na sua proteção superficial.

Quando feito de forma profunda e atendendo aos três critérios mencionados, a prática do Plantio Direto é o principal aliado da lavoura contra longos períodos de estiagem.

Isso porque é através dele que se mantém a palha e os demais restos de vegetais de outras culturas na superfície.

Com isso, o solo retém mais água, diminui a temperatura da superfície e facilita a infiltração.

>>> Na cultura do arroz, a palhada que se forma no pós-colheita é sinônimo de produtividade para as próximas safras. Entenda porque neste link.

Além disso, o Plantio Direto, especialmente em tempos de estiagem:

? Reduz a erosão e a perda de nutrientes que seriam arrastadas para as partes mais baixas do solo;

? Enriquece o solo pois aumenta a qualidade da sua matéria prima e

? Simboliza economia de tempo e de combustível, já que ocorre menor número de operações com máquinas agrícolas

 ‘‘Não é só a palhada na superfície, temos todo um acréscimo que deve atender aos três princípios, que vai trabalhar todo o sistema, que vai trabalhar uma estruturação do solo, vai trabalhar a parte protógena do solo’’, acrescenta Marie.

Rotação e sucessão de culturas: saiba como diferenciá-las

Já vimos que o maior benefício do Sistema de Plantio Direto é a possibilidade de cobertura permanente do solo.

Essa cobertura deve ser de qualidade suficiente para se incorporar à terra e garantir os nutrientes necessários que ela precisa.

Esse é o principal motivo que faz da rotação de culturas ser o pilar principal do sistema de plantio direto.

Entretanto, mais comum do que imaginamos, é o grave engano cometido por produtores de todo o país ao acharem que rotação e sucessão de culturas são a mesma coisa.

Marie Bartz explica essa diferença ao dizer que ‘‘o nosso tradicional soja-milho ou soja-soja, que é o que os produtores vêm fazendo, não adicionam matéria orgânica com qualidade ou vai manter uma matéria orgânica selecionável’’.

Matéria orgânica de qualidade ruim ou pouco suficiente não ativa o solo biologicamente falando, tão pouco se decompõe com facilidade.

Nesse sentido as vantagens econômicas trazidas pelo Sistema de Plantio Direto são perdidas, já que matérias orgânicas não decompostas dificultam o trabalho das máquinas e dos implementos agrícolas.

É função das plantas alimentarem a biologia do solo.

Por esse motivo, os pesquisadores afirmam que a quantidade de culturas em um mesmo pedaço de terra é proporcional a qualidade biológica da mesma.

‘‘A grande questão é a qualidade da matéria orgânica que você vai adicionar nesse solo. Muitas vezes, a matéria orgânica têm qualidade ruim e você não consegue recompor essa matéria. A biologia do solo é quem faz esse papel e o que alimenta é quem está em cima – ou seja, as culturas’’. (Marie Bartz).

Milho após a soja, uma dos mais tradicionais plantios feitos pelos produtores não é suficiente para cumprir esse papel. Isso não seria uma rotação, mas sim sucessão.

Para que a técnica de rotar culturas de fato traga todos os benefícios que promete é preciso que se tenha um número de culturas, com rotação ao longo do tempo e em vários talhões.

Dentre esses benefícios estão o reestabelecimento ou a continuidade do equilíbrio biológico e da produtividade do sistema.

De acordo com o Engenheiro Agrônomo Antonio Luiz Fancelli, existem alguns princípios básicos que determinam a eficiência e o sucesso das rotações de culturas:

? Alternância de espécies vegetais apresentando exigências nutricionais distintas;

? Alternância de espécies vegetais que apresentem diferentes sistemas radiculares, quanto à arquitetura, distribuição e profundidade de exploração do solo;

? Alternância de espécies que não apresentem suscetibilidade a patógenos e a insetos-praga comuns;

? Uso de uma ou mais espécies com elevada capacidade de produção de resíduos, preferencialmente com alto valor da relação carbono/nitrogênio (C/N).

Bartz aponta que para se ter efetivamente uma rotação são necessárias, em 3 anos, a adoção de 5 culturas diferentes.

Mas como decidir quais culturas podem ser rotadas entre si?

Aqui, mais uma vez, entra a questão da heterogeneidade do solo.

A escolha das melhoras culturas para entrarem em rotação entre si vai depender de uma análise técnica da lavoura, bem como a realidade de cada plantação.

A forma como os três princípios do Plantio Direto serão atendidos é também de acordo com a realidade de cada produtor.

Primeiro, se faz necessário enxergar qual é a deficiência de cada solo e a partir desses problemas trabalhar a sua biologia.

Por isso, para que situações extremas do ambiente não castiguem mais ainda a sua plantação, se faz necessário a adoção de técnicas que a tornem mais resistente para a diminuição dos prejuízos.

Fontes: Notícias Agrícolas, Embrapa, Revista Visão Agrícola