Uma nova frente de investimentos está invadindo o Brasil e ela se chama etanol de milho.

De acordo com Ricardo Tomczyk, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o potencial de expansão dessa indústria relativamente nova no Brasil é grande, visto que as previsões de aumento de demanda por etanol são bastante positivas.

Essa é mais uma alternativa sustentável originada da produção nacional e que, entre outras coisas, diminui cerca de 70% as emissões de gases de efeito estufa, além de trazer uma multiplicidade de novos postos de trabalho.

Atualmente, o Brasil possui dez usinas em produção e quatro sendo construídas, distribuídas da seguinte forma:

  • 5 em operação e 3 em construção, no Mato Grosso;
  • 3 em operação e 1 em construção, em Goiás;
  • 1 em operação, em São Paulo;
  • 1 em operação, no Paraná.

Um dado interessante nesse contexto vem da EPE, Empresa de Pesquisas Energéticas do Ministério de Minas e Energia, onde constata-se que o consumo total de etanol no país deve sair dos 35 milhões de m³, em 2018, para 49 milhões, em 2030.

Nesse cenário, o etanol de milho contribuiria com 8 a 10 milhões de m³.

Mesmo com o processo de fabricação sendo mais complexo e, por vezes, mais caro do que fabricar o etanol através da cana, os estudos aqui apontados sugerem benefícios econômicos e ambientais ainda não vistos na primeira produção.

A atual quantidade de etanol de milho produzida no Brasil foi de 840 mil m³, em 2018, já saltando para 1,45 milhões de m³, em 2019.

Essa tendência de crescimento deve-se manter nos próximos anos.

Vista como uma das principais alternativas para dar vazão a colheita do cereal e colaborar para o incremento de uma matriz de combustível cada vez mais limpa, o etanol de milho é o tema principal deste artigo.

Nos preocupamos em trazer os últimos dados e estudos feitos acerca do assunto, bem como as vantagens econômicas desta nova forma de produzir etanol.

Portanto, te convidamos a entender um pouco mais sobre esta temática que também colabora com a expansão do Brasil em um cenário global competitivo.

Boa leitura!

Entendendo a produção do etanol de milho

O primeiro – e positivo – ponto a ser falado sobre a produção do etanol de milho é que uma usina de cana não precisa implantar outra destilaria para fabricá-lo.

É possível reaproveitar os mesmos equipamentos sem duplicar os processos.

Com isso, os investimentos são reduzidos pela metade ao mesmo tempo em que se produz mais etanol, afirmação do presidente da empresa Fermentec, Henrique Amorim.

Dessa forma, as duas indústrias não competem entre si, mas somam esforços para atingir objetivos maiores.

Além disso, o etanol produzido através do milho atende às mesmas especificações, finalidades e mercado do etanol de cana.

Tomczyk afirma ainda, que se levarmos em consideração o cenário de demanda que temos de etanol pela frente, certamente a recente opção será complementar a primeira, havendo espaço para ambos e condições regionais que definem a maior ou menor produtividade de cada modelo.

Diferente do etanol produzido a partir da cana, onde o caldo com o açúcar é fermentado diretamente, o etanol de milho passa por algumas fases antes disso.

Amorim explica que, primeiramente, é necessário triturar o grão de milho e colocá-lo em água quente. Dessa mistura sairá o amido que é o açúcar a ser fermentado.

Porém, este amido não é fermentável como é o açúcar da cana. É preciso que as suas moléculas sejam quebradas com o uso de enzimas.

Por último, adicionam-se as enzimas e as leveduras para fermentá-lo.

Embora o custo de produção do etanol de milho seja cerca de 15% maior do que o de cana devido ao uso adicional das enzimas, esta diferença praticamente se anula com a saca do grão sendo negociada aos preços atuais.

A novidade serve ainda como um estabilizador nos preços do grãos, pois gera uma demanda consolidada e contínua durante todo o ano.

Além disso, é do etanol de milho que se deriva uma substância de alto valor proteico utilizada como insumo na fabricação de ração animal e em outros serviços agroindustriais, o DDG.

Em inglês, a sigla significa grão de destilaria seco e faz sucesso pelos Estados Unidos.

Os norte-americanos afirmam ganhar mais dinheiro com a produção da proteína do que com o próprio álcool.

Para Amorim, o Brasil tem tudo para seguir os mesmos caminhos com destilarias e confinamentos do DDG sendo implantados lado-a-lado.

As vantagens de fabricar etanol de milho

De acordo com o 8º Levantamento da Safra de Grãos 2018/2019 divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foi estimada a 2ª maior colheita de milho na safra, podendo ultrapassar 95 milhões de toneladas devido às chuvas que ocorreram nos últimos meses nas regiões produtoras da segunda safra do grão, principalmente no Centro-Oeste.

O cenário que se estabelece é que a oferta de milho no Brasil acaba sendo bastante superior ao consumo interno.

E para isso, é preciso que soluções viáveis e lucrativas sejam pensadas para aproveitar os grãos excedentes da safra.

É assim que surge a produção de etanol de milho, prática vantajosa econômica e sustentavelmente falando.

A primeira grande vantagem é em relação à capacidade que o milho tem de se manter armazenado.

Ao contrário da cana que precisa ser moída imediatamente para conservar suas taxas de qualidade, o milho pode ser armazenado por mais tempo antes de ser convertido em etanol.

Geralmente no período de entressafra é quando as indústrias sucroenergéticas enfrentam grandes problemas de produção por não possuírem matéria-prima para processamento.

Neste caso, o etanol de milho seria o grande responsável por suprimir as demandas do mercado nesta época do ano.

Em estudo feito pela Agroicone, empresa que atua na construção de análises, pesquisas e ferramentas de alto impacto para o agronegócio, foram constatados alguns números bem interessantes referentes a produção do etanol de milho quando comparados com a gasolina.

Foi dado como exemplo a construção de uma unidade destinada a produzir 500 milhões de litros por ano do biocombustível em Mato Grosso.

Segundo o estudo, os investimentos na fase de construção da unidade gerariam até 8,5 mil novos empregos diretos e indiretos.

R$ 1,5 bilhão movimentaria toda a economia do país, somando o valor de produção, R$ 660 milhões, e a arrecadação de impostos, de R$ 80 milhões.

Em operação, essa unidade se encarregaria de movimentar 2 bilhões e meio de reais em vendas anuais, contribuindo com R$ 910 milhões ao Produto Interno Bruto (PIB).

Número que é 73 milhões de reais maior do que atualmente é arrecadado com a venda da gasolina e do etanol importado.

As estimativas da pesquisa apontaram ainda que as emissões de gases de efeito estufa reduzem em 70% na fabricação do etanol de milho, quando comparado com a gasolina, por exemplo.

O uso de biomassa, no lugar das fontes fósseis, para gerar combustíveis, e a utilização do milho segunda safra como matéria-prima são outras formas de otimizar os recursos e agregar na produção do etanol de milho.

Os resultados são ainda mais favoráveis quando olhamos para o uso da terra, especialmente pela nutrição agregada causada pelos DDG’s.

O que desafia o etanol de milho?

Em relação ao milho os desafios estão concentrados na política de tabelamento do frete também deve chegar trazendo a redução no interesse de venda e com isso aumentar a quantidade estocada, o que, por sua vez, reduz o preço do grão.

Internacionalmente falando, os Estados Unidos devem aumentar a sua produção e com isso acirrar a disputa com o Brasil.

Devemos ficar atentos à China e ao México, que surgem como excelentes mercados para exportação.

Já em relação ao etanol de milho, é consenso entre os empresários que o principal desafio é aumentar o envolvimento de todos os grupos do setor nesse novo modo de produção.

Aponta-se ainda o custo de produção. Gerar etanol de milho, segundo as usinas, só é economicamente viável quando a saca esta abaixo dos 20 reais, fato que geralmente se restringe ao estado do Mato Grosso.

A matéria prima para esse tipo de produção, o milho, é comum nos EUA. Por aqui, a cana-de-açúcar ainda domina.

Isso faz com que o novo biocombustível tenha dificuldades para alavancar em termos de cultivo, tecnologia, investimento e logística de escoamento.

Por último, o presidente da UNEM ressalta que a questão logística pode ser um grande entrave para o crescimento mais acelerado dessa cadeia.

Fontes: ESALQ/USP; Blog da Agrishow; Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Revista Globo Rural; Sociedade Nacional de Agricultura; União Nacional do Etanol de Milho e Nova Cana.