Porque o Agro do Brasil alcançará um trilhão de dólares em 2027

Pegamos carona no SEBRAE Talks Agronegócio, os 5 dias de conversação online sobre o futuro do agronegócio brasileiro, organizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.

Na oportunidade, Marcos Fava Neves* trouxe as perspectivas para o agronegócio brasileiro a partir de uma análise da balança comercial e dos últimos resultados atingidos pelo setor.

O objetivo da fala foi contextualizar os últimos anos do agronegócio e explicar como o produtor pode construir margem a partir das perspectivas que se apresentam.

E ele afirma: em 2027, o agro alcançará um trilhão de dólares em receita.

Em pouco mais de 50 minutos de fala, Neves explicou como e porque o Brasil dará esse salto nos próximos 10 anos.

A afirmação chamou tanto a nossa atenção que resolvemos elencar os principais pontos da fala do engenheiro agrônomo, no texto a seguir.

E como é de se esperar, atente-se desde já para estas duas palavras: exportações e tecnologias.

Os grandes números de 2018

Se existe algum fato que confirma a possibilidade do agronegócio alcançar seu primeiro trilhão de dólares em 2027, esse fato é 2018.

Foi neste ano que a agricultura recebeu uma das melhores notícias para o setor, na visão do professor.

É que a China passará a misturar 10% de etanol na gasolina, até 2020.

Isso vai criar um mercado adicional de milho de 40 milhões de toneladas, o necessário para os chineses alcançarem essa meta.

Outra grande potência, os EUA, fez isso em 2005 e, atualmente, consome 140 milhões de toneladas, todos os anos, só para a mistura com o etanol.

E o que o Brasil tem a ver com isso?

Tudo. A capacidade de expansão, em área e produtividade, das terras brasileiras o coloca como principal produtor nesse cenário.

Foi em 2018 também que produzimos 228,3 milhões de toneladas, fazendo desta a segunda maior safra no quesito produção.

A seca nos meses de maio e junho que atingiu em cheio a segunda safra do milho e grande parte das lavouras de trigo, principalmente no Rio Grande do Sul, impossibilitou o novo recorde.

Por outro lado, a [situação da Argentina] e a variação cambial somaram pontos a nosso favor.

A dupla soja e milho como sempre dispararam os números.

Foram 119,2 milhões de toneladas da primeira e 81,3 milhões do segundo, resultado que coloca o Brasil entre os 3 maiores produtores mundiais destes alimentos.

Os 61,7 milhões de hectares colhidos também tiveram destaque com aumento de 4,1% de um ano para o outro.

De 2008 pra cá, a área plantada no Brasil cresceu cerca de 70%.

Destaque para o município de Sorriso, no Mato Grosso.

O estado, que já é o maior produtor nacional de soja, viu a cidade injetar, sozinha, incríveis 3,3 bilhões de reais na economia do país.

São 3,3 bilhões impulsionando vários outros setores: comércio, indústria, bens e serviços.

Em termos de exportações, comercializamos 9,3 bilhões de dólares, 3,6% a mais que na safra 2016/2017.

A soja contribuiu com 4 bilhões nesse montante, com 43% de aumento em relação a penúltima colheita.

A influência da China destaca-se também aqui. Os asiáticos passaram a comprar de 26% a 36% de tudo que comercializamos no último ano.

Ao final de agosto, somente o agronegócio brasileiro deixou um saldo de 60 bilhões de dólares, em relação a outras áreas que somaram um total de 40 bilhões.

A diferença de 20 bilhões de dólares denota a importância que o setor tem na estabilização da economia, na garantia de uma moeda forte e na baixa da inflação.

Mas será que em 2018 todos saíram ganhando? Definitivamente não.

Neves pontua os produtores de arroz e, especialmente, os suinocultores como os mais enfraquecidos neste período.

Rações mais caras, menor volume de exportações, em virtudes dos embargos comerciais, e um mercado interno que ‘‘andou de lado’’, fizeram com que a situação dos produtores de suínos fosse a pior.

Por fim, o motivo pelo qual a economia do Brasil não está crescendo os 2,8% previstos para o ano: a sombria greve geral dos caminhoneiros.

Com cerca de 1% do PIB detonado e a emergência de problemas estruturais e conjunturais, a greve dos transportes, ocorrida no mês de maio, foi letal e trouxe prejuízos a toda cadeia.

Como, por exemplo, a política de tabelamento. Decisão equivocada que ascende novos problemas estruturais, como o investimento em frota própria dos caminhoneiros.

Para o palestrante, o aumento da ociosidade de caminhões que já existia, sairá muito mais caro a partir de agora.

No primeiro semestre de 2018, foram vendidos 50% a mais de caminhões que no primeiro semestre de 2017.

Com esse panorama inicial estamos prontos para falar do que vem pela frente.

Como o Brasil cresceu ao longo dos anos?

Em 1991, 58 milhões de toneladas de grãos eram entregues por ano no Brasil.

O número era bem menor no âmbito das carnes: há 27 anos, produzíamos apenas 5 milhões de toneladas de carne bovina, 2,36 de frango e 1,05 de suínos.

Se compararmos com os números atuais, o nosso gráfico de evolução na produção de grãos e carnes fica uma verdadeira montanha.

Em 2017, passamos a produzir mais de 230 milhões de toneladas de grãos.

Bovinos, frangos e suínos cresceram 89%, 462% e 255%, respectivamente.

A agricultura extremamente competitiva que temos hoje é o que permite que o setor projete uma quantidade enorme de recursos no país, ajudando a expandir o campo e fomentando a geração de renda e empregos.

Boa parte de toda essa produção foi exportada e então são elencados alguns dados mais interessantes ainda.

Nos anos 2000, o Brasil vendia para o mundo 4 bilhões de dólares referentes ao complexo soja.

17 anos depois, concentramos 31,717 bilhões com a venda de soja em grão, em farelo e óleo.

As carnes, hoje, aparecem em segundo lugar na lista dos produtos que mais exportamos.

Em menos de 20 anos, o valor total de vendas saltou de 1,957 bilhões de dólares para 15,474.

Na tabela abaixo podemos acompanhar o desempenho de outras mercadorias importantes.

E ao que tudo indica, ainda não é momento de pararmos de falar sobre a China.

Se olharmos para a tabela à direita, veremos que atualmente esse é o principal país comprador dos mais diferentes produtos que geramos.

A China está se configurando como um verdadeiro ‘‘aspirador’’ que puxa a produção brasileira, investindo em torno de 26,557 bilhões de dólares no nosso país.

Mesmo com as questões trabalhistas e criminais que envolvem a produção agrícola hoje, como assaltos às propriedades rurais, falta de infraestrutura, aumento dos tributos, da escassez do crédito e das taxas de juros, ainda foi possível entregar ‘‘resultados fantásticos jogando em um estádio de condições ruins’’.

E as previsões confirmam que entregaremos muito mais como veremos a partir de agora.

As projeções rumo a 1 trilhão de dólares

O principal fato que faz Fava Neves acreditar no potencial das exportações é a demanda mundial por alimentos.

Até 2070, seremos mais de 9 bilhões de pessoas, com 80% concentrando-se na Ásia e na África.

Atrelado a isso ainda temos a migração do campo para a cidade e o aumento das áreas destinadas para a produção de biocombustíveis, primeiro ponto abordado sobre a relação comercial brasileira com a China.

Os chineses estão gostando de carne e mais ainda da carne suína.

Entre 2005 e 2015, eles aumentaram o consumo anual de carne de porco em 200 milhões de animais.

Na comparação, o Brasil é uma potência agroambiental em relação a China.

As normas aqui já estabelecidas, o código florestal, a capacidade de preservação e o aumento para 85 milhões de hectares cultiváveis, em 10 anos, colocam-nos em vantagem produtiva diante da demanda por carnes.

Ao alcançarmos 85 milhões de hectares, estaremos ocupando apenas 10% do território brasileiro com a produção de grãos.

Para Neves, o Brasil tem capacidade sim de se expandir, em produtividade e em área, para abastecer o gráfico colocado na sequência.

Saindo do campo das carnes e partindo para o dos grãos, a justificativa do porquê o agronegócio alcançará um trilhão de dólares, em 2027, vem justamente delas, das exportações.

Em 2017, o mundo comprou 147,7 milhões de toneladas de soja. Daqui a 10 anos, esse número será de 204,1 milhões de toneladas. Serão 56 milhões de toneladas de soja a mais compradas mundo a fora.

Com a tonelada custando 400 mil dólares, em 2027, o mundo vai comprar 22,5 bilhões de dólares a mais, em soja, que em 2017.

A primeira linha da tabela mais abaixo nos informa a quantidade de soja que o Brasil vendeu em 2017.

Das 147,7 milhões de toneladas vendidas em todo o mundo, 63,1 milhões partiram do Brasil.

Em 2027, do total de 204,1 milhões de toneladas que o mundo irá comprar de soja, 96,4 serão do Brasil. Praticamente a metade de todo o comércio.

Em 10 anos, teremos 33,3 milhões de toneladas a mais de soja, tendo o Brasil como ponto de partida.

Portanto, podemos afirmar que o produtor rural brasileiro ofertará 13,3 bilhões de dólares a mais do que ofertou em 2017.

Atualmente, a soja exporta 16 milhões de reais por dia.

Em resumo, o cálculo que resulta em 1 trilhão de dólares gerados pelo agronegócio, em 2027, fica assim:

96 bilhões de dólares (total que o Brasil vendeu de agronegócio para o mundo, em 2017) x 10 anos = 960 bilhões de dólares + adicional de crescimento esperado pelas culturas citadas = 155 bilhões + açúcar/etanol/frutas/fumo/papel/celulose (tudo que as cadeias envolvidas irão crescer) = 1,1 – 1,2 trilhões.

Até aqui, o professor afirmou que mercado irá ter. O que não foi dito ainda é se teremos preços.

As projeções de preços das commodities mundiais analisadas confirmam que para os próximos 10 anos, elas devem ficar na média que temos hoje.

Ou seja: vai ter muito mercado ao preço atual. Qual o desafio, portanto, do produtor rural para o futuro?

O desafio é construir margens de lucro e resultados.

E a última parte do texto apresenta as 3 formas que os produtores, as cooperativas e as empresas terão para construir margens de lucro para os próximos 10 anos.

Construindo margens na cadeia produtiva do agronegócio

Uma cadeia agroindustrial tem início na compra das sementes, dos defensivos e das máquinas e termina apenas quando o consumidor final tem acesso ao produto, seja nos supermercados ou nos restaurantes.

No meio dos elos desta cadeia existe a possibilidade de inserção de 3 formas que irão gerar margens de lucro ao produtor rural.

Essas são as formas mais viáveis para que aconteça uma mudança de comportamento e para que o produtor rural, então, consiga atender às demandas já faladas.

1 – Economia digital e tecnologia

A fazenda conectada é o melhor exemplo de como essa forma de economia já chegou até nós.

A barra de luzes para aplicação de defensivos também. Ela reconhece onde está a planta daninha e dá sinal para que a aplicação química aconteça apenas em cima da invasora.

Não é mais uma aplicação por hectare. É uma aplicação direta.

É o uso de menos produtos e, automaticamente, a construção de margens de lucro.

Outro exemplo, presenciado por Neves na última Agrishow, é um drone com capacidade de carregamento de 150 litros.

Ele pulveriza a lavoura com excepcionais 5 cm de distância da planta. Sem condutor e com custo operacional muito mais baixo.

Mais uma vez, redução de desperdício e construção de margens no agronegócio.

Os responsáveis por essa fantástica criação afirmam que não apenas para a agricultura o equipamento será útil, mas também para apagar incêndios e salvar de vidas em afogamentos.

Além disso, presenciamos um pacote de inovações vindo da área genética.

Esses e muitos outros exemplos permitem que Marcos Fava Neves afirme:

‘‘Morreu o hectare,

nasceu o metro quadrado’’.

A partir de agora, as produções passarão a ser gerenciadas pelo metro quadrado, sem desperdício.

É fertilização e controle de pragas localizados, usufruindo de toda tecnologia que temos disponível.

E pequenos produtores terão acesso a isso tudo via cooperativas e empresas prestadoras de serviços que já estão se encaminhando para essa nova forma de gerir a agricultura.

2 – Economia circular e da integração

Alguns exemplos.

Usinas de cana no país já estão investindo em unidades processadoras de milho junto com a cana.

Ao colocar o milho, a margem já começa a ser construída, porque usa-se o mesmo terreno, o mesmo executivo, a mesma segurança, a mesma equipe e engloba duas fábricas ao mesmo tempo.

1 tonelada de milho processada rende 400 mil litros de etanol, que irá fazer parte da produção de cana, na primeira usina.

Retira-se ainda de 300 a 330 kg de um produto chamado DDG, uma espécie de bagaço do milho, altamente proteico e que incentiva o confinamento do lado da usina.

É uma parte importante da ração podendo ser retirada ali, na mesma produção, sem depender de transporte que se chama confinamento integrado de milho e cana.

O confinamento gera esterco que, ao ser tratado, volta como fertilizante do milho e da cana.

A ideia da economia circular é basicamente de reduzir o número de insumos e sair mais produtos de uma mesma produção.

3 – Economia coletiva ou de compartilhamento

Como ponto de partida para exemplificar esse tipo de economia, Neves abarca uma realidade que vem mudando nos maiores centros urbanos do país.

Em tempos de Uber, as pessoas estão se dando conta que ter carro já não faz mais sentido.

O Uber tornou-se uma opção mais barata, confortável e segura.

Somando seguro, depreciação, combustível, estacionamento e outros, o preço de manutenção, por dia, de um carro próprio é muito mais elevado que o preço desses novos modelos de transporte.

Mas qual o impacto desses modelos chamados de compartilhamento, que colocam quem oferta serviços em contato com quem precisa desses serviços, na agricultura?

Também na agricultura essas plataformas permitem a redução do volume de ativos, máquinas e tratores.

Eles passarão a ser melhores utilizados e todos saberão quem tem o que para poder alugar.

Teremos os uber de plantio, colheita e armazenamento.

Ao fazer isso, ambos os envolvidos constroem margens e diminuem recursos.

O resumo de tudo que elencamos até agora, com base na participação do professor Marcos Fava Neves no SEBRAE Talks Agronegócio está em uma frase compartilhada por ele em uma de suas redes sociais:

 

‘‘Há muito mercado para conquistar em termos de volume, mas os preços serão estes, portanto temos que construir margem via eficiência das cadeias produtivas integradas: tecnologia/digital; economia circular e do compartilhamento’’.

 

*Marcos Fava Neves, nascido em Lins (SP), é professor titular da FEA/USP em Ribeirão Preto. Engenheiro Agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 1991, mestre em Administração (Estratégias de Arrendamento Industrial na Citricultura, FEA/USP, 1995), doutor em Administração (Planejamento de Canais de Distribuição de Alimentos, FEA/USP, 1999), livre-docente em Planejamento e Gestão Estratégica (2004) e professor titular (2009). É também pós-graduado em Agribusiness & Marketing de Alimentos na França (1995) e em Canais (Networks) de Distribuição de Alimentos na Holanda (1998/1999). Foi coordenador do Pensa –Programa de Agronegócios da USP –, de 2005 a 2007, criador do Markestrat(Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia da USP), em 2004 e foi chefe do Departamento de Administração em duas gestões (2000-2002 e 2010-2012).

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