Sabemos que é difícil de imaginar, mas houve um tempo em que essa potência agrícola chamada Brasil foi totalmente improdutiva.

Tecnologia de ponta, manejo bem feito e muita força de vontade foram alguns dos fatores que transformaram os solos pobres de terra fértil que aqui existiam em produtivos.

E os resultados são esses…

Hoje, o Brasil é o único país no cinturão tropical do globo que se tornou potência agrícola, graças ao trabalho de produtores que souberam conduzir a agricultura ao patamar que está atualmente.

Os diferentes ciclos de cultivos variados permitem que a terra seja aproveitada o ano todo e em todas as condições, otimizando o solo e as próximas culturas.

O agricultor, que parece ter no sangue a sua vocação, soube mesclar conhecimento técnico com oportunidades de mercado e tornou a nossa produção essencial para o país e para o mundo.

Nasceu então um modelo de agricultura fortemente baseado em ciência e conhecimento.

Essa promissora combinação nos colocou como protagonistas de uma verdadeira revolução na produção de alimentos.

Tamanhas grandiosidades alcançadas, porém, culminaram em cenários desafiadores na mesma medida.

A verdade é que estamos inseridos em uma sociedade cada vez mais exigente em termos de sustentabilidade, onde os mercados estão gradativamente mais dinâmicos e competitivos.

E se quisermos que o Agro continue sendo um dos principais motivos pelo qual o Brasil é reconhecido mundo a fora, precisamos estar atentos e responder de maneira rápida e dinâmica estas exigências.

Mas de que forma?

? Integrando e gerindo sistemas cada vez mais dinâmicos, mutáveis e complexos

? Fazendo escolhas estratégicas que permitam o agronegócio se ajustar a essas novas exigências

? Dando mais atenção a dimensões e temas que irão modelar o agronegócio de agora para o agronegócio do futuro.

Pareceu complexo demais ou até mesmo impossível?

Calma.

Vamos elencar que temas são esses que obrigatoriamente precisarão aparecer na agenda das lideranças e dos responsáveis pelas tomadas de decisões para garantir o futuro do nosso sistema agroalimentar e agroindustrial.

Acompanhe!

As dimensões do futuro do agronegócio

Maurício Antônio Lopes é ex-presidente da Embrapa e autor do artigo de opinião que embasa este texto.

Ele reconhece que, apesar de todos os notáveis avanços, o agronegócio ainda tem muitos e antigos desafios para serem enfrentados, como:

? A eliminação de pragas, patógenos e plantas invasoras

? A busca pelo aumento da eficiência na maneira como solo e água são utilizados

? A permanente necessidade de sempre reduzir os impactos negativos ao ambiente

? A garantia da segurança alimentar e nutritiva dos grãos produzidos.

A agricultura nunca foi nem nunca será livre de desafios.

E em um contexto onde o foco é torná-la cada vez mais sustentável isso não será diferente.

Para isso será necessário que sistemas dinâmicos, mutáveis e complexos sejam criados e integrados para permitir que o Agro se ajuste às novas realidades.

O contexto dinâmico e instável que ele se encontra cobra respostas cada vez mais rápidas diante das demandas de um mercado também dinâmico e instável.

O caráter de urgência assumido pelas questões que falaremos a seguir é justificado pela manutenção da nossa permanência enquanto um dos maiores países produtores agrícolas do mundo.

Então vamos a elas!

Agricultura sistêmica

Aqui, cabe todos os esforços que o Brasil ainda precisa fazer para intensificar a geração e o uso de tecnologias que ajudem na baixa emissão de Carbono.

Através destas tecnologias é que será possível expandir a produção agrícola e pecuária de maneira sustentável.

O principal esforço aqui diz respeito ao ganho de produtividade sem que necessariamente haja aumento da área produzida.

Entre o que já vem sendo feito nesse sentido, recebe destaque o Plano ABC, política pública que estimula a incorporação de práticas sustentáveis, como:

? A recuperação de pastagens degradadas

? A Integração Lavoura-Pecuária

? O Sistema de Plantio Direto

? A fixação biológica de Nitrogênio.

Na visão de Lopes, o país já está preparado:

‘‘E, diferentemente de qualquer grande produtor de alimentos do mundo, o Brasil mantém 62% do seu território com cobertura vegetal natural. Esse protagonismo e as oportunidades de geração e disseminação de tecnologias capazes de promover a expansão sustentável e sistêmica da produção agropecuária deverão dominar a agenda do agronegócio no futuro’’.

Agregação de valor

A segunda dimensão que irá modelar o agronegócio que conhecemos diz respeito ao seguinte ponto:

“Incorporar inovações tecnológicas para agregação de valor, especialização e diversificação que permitam aos nossos produtos se integrarem às cadeias de valores globais”.

E se caso você se pergunte se isso já não vem sendo feito, Lopes detalha que, infelizmente, o Brasil possui um modelo industrial com dificuldade de perceber a emergência de tecnologias e economias de ponta.

Um exemplo disso é a total ausência de produtos manufaturados originados no Brasil em mercados de Dubai ou de Hong Kong.

São vários os estudos que apontam uma redução na demanda por produtos do agronegócio que não sejam elaborados ou sofisticados, a partir de 2030.

E considerando a capacidade que o Brasil tem de expandir a sua participação no mercado mundial agrícola, a pressão será cada vez maior para que nossos produtores se desfaçam o mais de pressa possível dessa produção primária e pouco elaborada.

Mais do que é preciso ainda que políticas públicas sejam repensadas para abolirmos de vez a logística precária e de altos custos que impedem a nossa inserção com mais força no mercado internacional.

Em resumo, a produção agrícola brasileira precisa se diversificar e se especializar para assim produzir artefatos mais elaborados e sofisticados a nível global.

Inteligência territorial

Um combo de medidas que precisam ser adotadas para que o território agrícola brasileiro seja compreendido cada vez mais de acordo com a diversidade e as riquezas que o formam.

Um país tão diverso e complexo como o nosso merece uma gestão agrícola que entenda que os desafios do mundo rural vão além dos limites das fazendas.

Para que tais desafios sejam respondidos é necessário que a inteligência territorial dê conta de acompanhar a dinâmica da agricultura.

Para isso, grandes bancos de dados precisam estar integrados à produção.

Imagens de satélites e os sistemas de informações geográficas também se alinham na lógica da gestão territorial estratégica, com o apoio de recursos computacionais de alto desempenho.

Gestão de riscos

As incertezas nos resultados destacam a agricultura como uma das atividades mais complexas e de riscos da sociedade.

E as consequências são sentidas, não somente neste campo, mas sim em vários outros setores, seja pela redução na renda ou na disponibilidade de produtos para abastecer a sociedade.

Embora o Brasil disponha de políticas e programas de gestão de riscos, vários são os indicativos de que a eficiência deles podem ser aumentados.

Um deles é o fato de que o Brasil perde, em média, 1% do seu PIB agrícola em virtude de riscos que poderiam ser gerenciados de forma mais eficaz.

E mesmo que os riscos na agricultura estejam bem mais associados a fatores climáticos e biológicos, os estudos indicam que as melhorias podem e devem ser feitas em outras esferas.

Como nas de mercado, de crédito, na comercialização e na logística e até mesmo nos padrões de consumo da sociedade.

As rupturas ocasionadas pelo progresso científico e tecnológico estão tornando-se frequentes e já são capazes de substituir o que existe.

Não há dúvidas de que as transformações seguirão em ritmo frenético, com alvos cada vez mais difusos e móveis.

As dimensões aqui apresentadas significam a forma como o agronegócio precisa se atentar para a nova globalização que está nascendo com a transformação digital.

Por trás dela existe ainda toda uma sociedade exigente e ansiedade por novidades.

Para que não percamos nossa posição de destaque neste cenário é preciso sim que novas remodelagens aconteçam e que as trajetórias em direção ao futuro, que certamente será cada vez mais dinâmico e desafiador, comecem a ser pensadas desde já.

Fonte: As escolhas estratégicas para o agronegócio, por Maurício Antônio Lopes.