Você já imaginou uma cultura onde o ganho de produtividade pode trazer problemas?

Essa é apenas uma das particularidades da lavoura arrozeira irrigada do Rio Grande do Sul.

Quando a produtividade do estado passou de 5 mil kg por hectare para 7,5 mil kg, há 10 anos, o produtor viu emergir uma situação antes não considerada um problema.

Estamos falando da palha do arroz.

A palha que fica na lavoura após a colheita é proporcional a quantidade de grãos que foram produzidos.

Ou seja, para cada tonelada de grão que se extrai da lavoura fica uma tonelada de palha.

A substância torna-se um limitante para as operações de preparo do solo porque impede que máquinas e implementos trabalhem normalmente.

Por outro lado, o mais recomendado por especialistas é que essa palha permaneça no sistema da lavoura para evitarmos a perda de nutrientes que ela carrega.

Mas então, o que fazer nesse caso?

A matéria seca que se forma atrapalha o andamento das máquinas, mas ao mesmo tempo auxilia na manutenção da fertilidade do solo…

Essa dicotomia já foi respondida por especialistas do mercado arrozeiro e as melhores alternativas estão listadas no texto a seguir.

Você irá descobrir:

? O que produtores de arroz do Rio Grande do Sul fazem com a palha após a colheita do arroz

? E vai conhecer o implemento agrícola recomendado pelo IRGA para acabar com o problema.

Vamos lá!

Hoje, o Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional de arroz e responde por 70% de tudo que é produzido.

A busca por produtividade sempre foi uma das principais metas dos arrozeiros do estado, muito penalizados pela ausência dos preços e concorrência desleal de mercado.

Com a adoção de práticas cada vez mais avançadas de manejo da lavoura, essa meta foi alcançada ano após ano.

Cuidar da lavoura de arroz irrigado no pós-colheita não representa apenas uma operação final de safra.

É também uma importante ação que garantirá uma próxima colheita mais eficiente e produtiva.

>>> Você pode baixar um infográfico completo sobre o desempenho da lavoura arrozeira, gaúcha e brasileira, nos últimos 10 anos, clicando aqui.

A maior produtividade das lavouras trouxe o aumento de grãos produzidos e, consequentemente, maior volume de palha que fica no pós-colheita.

O manejo dessa matéria seca é fundamental para a qualidade da próxima safra.

Isso fez com que produtores e pesquisadores se voltassem cada vez mais a buscar alternativas para o manejo da resteva, aprimorando as tecnologias relacionadas ao aproveitamento desse resíduo.

Rodrigo Shoenfeld, pesquisador do Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), explica que é importante que essa palha não seja retirada do sistema e que seja incorporada o mais rápido possível ao solo.

Porque do ponto de vista nutricional, nutrientes como o potássio (K) estão todos na palha do arroz e a cultura necessita dele, mas exporta muito pouco no grão.

Quanto maior for a demora para incorporar a palha ao solo, maior será a perda destes nutrientes.

O primeiro grande problema deste manejo é que as características químicas do resíduo e as condições climáticas do estado na entressafra fazem com que esse resíduo tenha uma decomposição mais lenta na lavoura.

‘‘Em função dela ser uma gramínea, é uma palha com alto teor de lignina e isso é um dos problemas que leva a essa decomposição mais lenta. Além disso, se pegarmos as áreas de arroz do Rio Grande do Sul, a partir do mês de abril, nós temos uma ocorrência muito grande de chuvas. Essas áreas que já são de difícil drenagem enfrentam ainda uma diminuição de temperaturas. Isso faz com que a decomposição dessa palha reduza muito nos períodos de outono e de inverno’’, explica Shoenfeld.

Mesmo que sendo formada por matéria orgânica que melhora a fertilidade do solo, a palha do arroz quando não está decomposta representa um problema para as operações com máquinas agrícolas na resteva.

A substância forma uma espécie de colchão no solo e impede o movimento do maquinário.

Além disso, as condições dos solos de lavoura de arroz no pós-colheita são condições muito heterogêneas.

Há pontos úmidos, secos e até com lâminas de água. O serviço acaba sendo prejudicado porque não existe uma conformidade.

O volume de palha também interfere e impossibilita um trabalho constante e de qualidade.

As consequências são elevação nos custos, devido ao aumento de operações, e dificuldade para antecipar o preparo do solo.

Essa situação pode ser bem retratada na fala do engenheiro agrônomo Valmar Cardozo Júnior:

‘‘O volume de palha que interfere impossibilita um trabalho constante, de qualidade. Tem que fazer várias operações e isso torna o serviço caro. O período útil de dias é muito curto hoje e a frequência de chuvas é maior, ou seja, tu não consegue dar acabamento no trabalho, tu só consegue fazer trabalho parcial. Dá um corte na lavoura ou tu faz um preparo pontual. É muito raro conseguir dar acabamento. Então essa é a grande dificuldade: tu nunca deixa a lavoura pronta. Tem que procurar um formato pra conseguir incorporar essa palha o mais rápido possível pós-colheita ou dessecar essa palha pra apodrecer mais rápido’’.

O agrônomo lembra ainda que a preocupação com a palha do arroz é recente entre os produtores.

Antigamente, com produtividades mais baixas, a resteva era trabalhada apenas quando se aproximava o plantio da safra seguinte.

Hoje, com a lavoura de alta tecnologia e maior disposição de resíduos em cima, se essa palha for pensada somente na primavera, certamente os produtores enfrentarão dificuldades de implantação da cultura.

O IRGA, portanto, vem trabalhando com alternativas de aproveitamento da palha para evitar que a resteva fique ociosa no período de inverno e para favorecer a incorporação da matéria orgânica no solo.

Vamos conhecer agora que alternativas são essas.

Já sabemos que a qualidade da próxima safra depende de como a palha foi reaproveitada na última colheita.

Uma das alternativas recomendadas para aproveitamento da palha da colheita do arroz é a integração lavoura-pecuária, praticada há muito tempo na metade-sul do Rio Grande do Sul.

As áreas de resteva servem de alimento para o gado, ajudam no ganho de peso dos animais e também facilitam o preparo do solo.

Rodrigo Shoenfeld considera a alternativa interessante porque o gado, ao se alimentar, termina defecando na mesma área e isso representa uma reciclagem do ponto de vista de nutrientes.

O próprio pisoteio do gado, ainda, faz com que o movimento do casco enterre a palha junto ao solo, ajudando na sua decomposição.

Para implementar essa alternativa, a primeira grande mudança deve acontecer na quantidade de animais por área, já que geralmente os produtores usam de 1 a meio animal por hectare.

Isso culmina na perda de peso dos animais que passarão o inverno todo comendo alimento de baixa qualidade.

O pesquisador explica que a estratégia deve ser trabalhada com uma quantidade elevada de animais, em torno de 10 a 15 cabeças por hectare.

Isso para que no período de 7 a 10 dias a palha já esteja enterrada, viabilizando o acabamento da área e preparo da lavoura para o ano que vem com as máquinas agrícolas.

Há produtores que optam ainda pela dessecação da palha no outono.

Além da integração entre lavoura e pecuária são adotadas diversas tecnologias de manejo da palha com o objetivo de antecipar as operações de preparo do solo.

Entre elas está o Rolo Facaimplemento recomendado pelo IRGA para o manejo da palha pós-colheita.

Além de desmanchar a resteva, o Rolo Faca permite que a palha entre em contato direto com o solo.

Esse contato, além de melhorar a reciclagem de nutrientes, termina ajudando no processo de decomposição da palha.

Outra vantagem de usar o Rolo é que ele independe de condição climática. A única exigência é que o mesmo seja usado durante ou após a chuva.

Testado por pesquisadores da Embrapa, os mesmos provaram que a sua utilização culmina em:

? Economia de diesel, custos e mão de obra;

? Redução da erosão eólica;

? Redução das plantas invasoras;

? Antecipação do preparo do solo;

? Facilitação da drenagem.

Portanto, a palha que se agrega no solo posteriormente a colheita do arroz só será um problema se você permitir isso.

Com as estratégias e tecnologias recomendadas é possível extrair todos os nutrientes que ficam nessa substância seca e ainda preparar o solo antecipadamente, diminuindo custos e o plantando na época certa.

O que acabamos de apresentar foi a importância de se buscar alternativas capazes de aumentar a produtividade e viabilizar o manejo da palha no pós-colheita do arroz.

Fontes: Planeta arroz e Canal Rural